José Expedito Rêgo
Não gosto de prefácios. Muitas vezes, quando começo a ler um livro, eu passo por cima das notas de apresentação. Se você pensa como eu, caro leitor, siga em frente! Comece logo pelos “Sonetos e Retalhos” de Gerson Campos, mesmo porque esse querido boêmio e poeta de nossos dias não precisa de apresentação ao povo de Oeiras. Ele permanece na lembrança de jovens e de velhos. Sua figura simpática e irreverente está gravada na paisagem de nossa terra, no ar que se respira, nos bancos dos jardins, nas árvores das praças, nas noites de luar, nas madrugadas de festa, nas serenatas alegres, no sorriso das moças, na reprovação sisuda dos velhos.
Muito louvável a atitude da família Campos, promovendo uma edição da obra de Gerson. Em nosso meio é tão difícil conseguir-se a publicação de um livro! O próprio Gerson, se fosse vivo, talvez não tivesse alcançado ainda semelhante façanha. Acho mesmo que ele nunca pensou em publicação, pois falta a seus poemas, tão cheios de lirismo e espontaneidade, o acabamento que se faz apenas com o labor paciente e assíduo. O espírito inconstante e irrequieto de Gerson Campos não era muito dado a esse tipo de trabalho. Seus sonetos e demais poemas permanecem na forma em que ele os improvisou.
Há, no entanto, alguns versos que já nasceram burilados e perfeitos. É o caso deste acróstico a Lucinda, autêntico madrigal cheirando a sol e água salgada, a pele morena da moça dengosa, a se espreguiçar sobre as areias da praia:
Lá está a dona Lucinda,
Um pedação de garota,
Contemplativa e marota,
Irradiante e tão linda,
Num jeito todo doçura,
Desperdiçando candura
Ao sol da praia de Olinda.
Os fesceninos versos da carta ao Careca são também uma obra prima de literatura estudantil, malandra e irresponsável.
Agora, o que existe de bom mesmo em Gerson Campos são as crônicas finais, que foram publicadas em O COMETA, sob o título de caleidoscópios. Pena que sejam tão poucas! – Desconheço outras páginas que digam melhor e de modo mais pitoresco, de figuras do folclore oeirense: Tiborão, Zacarias Canaverde, Dorete, etc.
É pois com sincero prazer que aplaudo esta iniciativa. Publicar a obra de Gerson Campos é legar aos vindouros um pouco da Oeiras de hoje. Que o digam Indé Copeiro, Lindoro e Casimiro...
*Apresentação do livro: "Sonetos & Retalhos". Uma obra póstuma de Gérson Campos
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